Tenho três filhos únicos. E essa afirmação não se deve apenas pelo fato de cada um deles ter sua individualidade e características próprias. Entre o nascimento da Anne, minha filha mais velha, e do Heitor, o caçula, há uma diferença de 27 anos. Logo, em cada gestação, havia uma sensação de ser mãe pela primeira vez.
Ao mesmo tempo em que eu sentia como se a maternidade me visitasse de forma inédita, meus filhos tiveram diferentes versões de mim. A mãe muito jovem da primeira gestação via a vida pela janela da pouca idade. Se a avó dizia que era bom dar um cházinho para a cólica, lá ia eu. Se a outra avó dizia que era bom engrossar a mamadeira com algum amido, a jovem mãe obedecia. Afinal, se mal sabia o que fazer com os choros noturnos, menos ainda teria convicções firmes sobre a alimentação.Dezoito anos depois, os dois risquinhos do teste de farmácia vieram me visitar novamente. Mas, dessa vez, foi bem diferente. Gravidez planejada, muita leitura e preparo. Uma mulher adulta e toda organizada para ser mãe, como se fosse a primeira vez.
Após a segunda gestação, em uma consulta, a ginecologista me perguntou se eu gostaria de engravidar novamente. Respondi que não. Ela justificou a pergunta dizendo que, caso eu desejasse, deveria passar por tratamentos, pois meus índices hormonais daquela época impediriam uma possível gravidez.
Eu estava despreocupada quanto a isso. E ela, por sua vez, estava errada. Oito anos depois, um bebê estava se desenvolvendo dentro de mim. Fui, pela terceira vez, mãe pela primeira vez. Descobri logo que era um menino – baita novidade para quem já havia trazido ao mundo duas meninas – e, aos 43 anos, ele teve uma outra mãe. Uma mãe com pressa de alcançar muitos objetivos, já que o relógio corria sem dó, e, ao mesmo tempo, uma mãe que, justamente por saber que o tempo passava rápido demais, não queria perder nenhum detalhe da vida do seu terceiro filho único.
Eu não passei pelo estresse de separar briga de irmãos ou de amamentar um bebê enquanto dava colheradas de comida na boca do outro filho. Consegui desmamar e desfraldar com a tranquilidade de quem só tem um filho, mesmo tendo três. Os desafios foram outros.
A criação de filhos em mundos diferentes
Quando a Anne nasceu, ainda nem tínhamos entrado nos anos 2000. O telefone celular era um tijolão e ainda estava chegando ao Brasil; a moeda não era o Real (mudava tanto que nem me lembro a daquele momento) e levaram alguns anos para o início do acesso à internet discada. Mas, antes que ela chegasse à fase adulta, o mundo já havia mudado completamente e se tornado digital. Tudo aconteceu tão rápido e de forma tão brusca que, confesso, não havia tempo para ter método de criação de filho. Fiz o melhor que pude.
A Maria Clara já nasceu no mundo conectado via wi-fi. Tudo era digital e interligado. As relações passaram a ser mais fluidas e o conceito de certo e errado nunca foi tão questionado. Ela nasceu no ano da gripe H1N1e atravessou a pré-adolescência na pandemia de Covid-19. Aulas online e distanciamento social. Conectados e distantes.
Só de ser menino, o Heitor já me apresentou um desafio novo. Como faz para criar um homem sem cair nos extremos da formação masculina? Minha preocupação nem era tanto a enxurrada de conteúdos vazios a que ele teria acesso com facilidade tendo nascido em 2018, no auge dos youtubers. Quem passou pelos anos 80 e 90 sabe bem o que é ter acesso a entretenimento televisivo de baixa qualidade e sobreviver a eles. O que me faz mesmo perder o sono é saber se estou conseguindo educar um menino que, no futuro, será um bom marido.



Três mães diferentes
Para criar três filhos em tempos tão diferentes, eu precisei criar três mães e a me tornar a melhor versão possível de cada uma delas. E isso seria impossível sem Deus.
A mãe jovem era inexperiente, mas demorava muito mais para se cansar. A mãe adulta se sentia mais preparada e tranquila, mas corria o risco de ser controladora. A mãe após os 40 já estava com a energia mais baixa, mas aprendeu a escolher as batalhas que enfrentaria, justamente por saber que o tempo passa rápido demais para desperdiçar com bobagens.
Deus me ajudou a ser a mãe que era preciso que eu fosse em cada fase. E, além: Ele completou o que eu não consegui ser. Perdoou as minhas teimosias e me guiou com paciência. Meu Pai me ajudou a ser mãe.
E isso pode ser realidade na sua vida também. Se está se sentindo sozinha, perdida, seja em qual estágio estiver da maternidade, lembre-se que há um Deus que cuida e espera que você entregue a Ele o controle.
Essas três mães, juntas, e cada uma a seu tempo, nunca estiveram sós. “Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mateus 28:20) é real. E, se a promessa é para “através dos séculos”, por que não seria através de 27 anos entre a primeira e a última vez que ouvi o chorinho de um bebê saindo da minha barriga?
