Ler estimula o cérebro, melhora a memória, promove sensação de bem-estar, amplia horizontes e repertório, transforma mentalidades e influencia nossa forma de agir, além de oferecer muitos outros benefícios.[1] Ainda assim, esse hábito não é uma realidade para muitos. Como expressou o poeta Carlos Drummond de Andrade: “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer; mas, por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede”.
No Brasil, a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura, divulgada em 2024, mostrou que apenas 47% da população pode ser considerada leitora – isto é, que leu ao menos um livro, ainda que parcialmente, nos últimos três meses.[2]Em contextos como esses, alguns esforços para formar leitores podem acabar relativizando a importância do conteúdo. Afinal, pode-se pensar que o importante é ler, independentemente do que se lê. Esse, evidentemente, não é o tipo de pensamento com o qual o apóstolo Paulo concordaria ao declarar: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o pensamento de vocês” (Filipenses 4:8).
A importância dos filtros
Recentemente, participei da gravação de um episódio do podcast Inverso, abordando os cuidados com a leitura. Como de costume, antes de iniciar a conversa sobre o tema, a equipe de produção colocou uma caixa sobre a mesa. Ao abri-la, o apresentador sempre pede que os convidados relacionem o conteúdo que há dentro da embalagem com o assunto em pauta. Naquele episódio, a caixa “misteriosa” continha um coador.
Uma das primeiras conexões que vieram à mente foi a necessidade de estabelecer filtros – um critério que se aplica não apenas ao que lemos, mas também a tudo o que ouvimos e assistimos. Sabemos que a leitura, assim como os conteúdos audiovisuais, não é neutra, pois traz histórias, ideias e valores que moldam nossa visão de mundo.
Por isso, a “revolução” literária que alguns afirmam estar ocorrendo levanta pontos de atenção. Ao contrário do senso comum – de que a geração de nativos digitais não lê –, há, sim, jovens leitores que devoram inclusive grandes narrativas.[3] Segundo a própria pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, entre os gêneros literários preferidos das novas gerações estão os romances e contos.
Eles têm buscado leituras que despertem emoções intensas e funcionem como uma fuga da realidade, dando preferência a obras de fantasia, ficção científica e terror. Entre os jovens, narrativas sobrenaturais e romances com relações poliamorosas estão em alta.[4]
O cristão e a literatura
Ellen White, que escreveu mais de 100 mil páginas ao longo de 70 anos de ministério, aconselhou seus leitores a ter sempre “um livro à mão” e aproveitar os “retalhos de tempo” para estudar, ler e meditar.[5] No entanto, ela também orientou sobre a escolha da leitura, ressaltando os perigos de sermos corrompidos por livros impróprios.
Ao falar sobre a influência da leitura nociva, a autora observou: “Satanás sabe que a mente é afetada em alto grau por aquilo de que se alimenta. Ele está tentando induzir tanto os jovens quantos os adultos a lerem novelas, contos e literatura semelhante. Os leitores desse tipo de texto se tornam incapazes para os deveres que têm diante de si”.[6] Ela chegou a dizer que “a natureza de uma experiência religiosa é revelada pelo tipo de livro que a pessoa escolhe para ler em seus momentos de lazer”.[7]
Mas, afinal, o que Ellen White entendia por literatura nociva? Ao que tudo indica, ela não condenava a ficção de modo geral. Aliás, a própria autora mencionou em seus escritos obras de ficção como O Peregrino, de John Bunyan, um clássico alegórico do século 17. Porém, alertou contra tipos específicos de obras que haviam se popularizado em sua época, aos quais se referia como “ficção de baixa qualidade”, “romances sensacionalistas”, entre outros termos aplicados a esses gêneros.[8]
Leituras que convêm
Os diversos estudos sobre o tema levaram a Igreja Adventista a estabelecer, décadas mais tarde, diretrizes para o ensino de literatura nas escolas adventistas. Ao abordar especificamente a relação entre Ellen White e a ficção, um documento preparado pelo Departamento de Educação da sede mundial da denominação na década de 1970, por exemplo, “seguiu o entendimento de que ela ‘usou o termo ficção para se referir a obras com as seguintes características: (1) viciantes; (2) sentimentalistas, sensacionalistas, eróticas, profanas ou inúteis; (3) escapistas, fazendo com que o leitor se volte para um mundo de sonhos e seja incapaz de lidar com os problemas da vida cotidiana; (4) que inabilitam a mente para o estudo sério e a vida devocional; (5) que consomem tempo e são sem valor’ (Department of Education, 1971, p. 4).”[9]
A experiência de um professor, relatada há alguns anos na Revista Educação Adventista, me ajudou a refletir sobre o tema.[10] Derek C. Bowe viveu um período de imersão em obras literárias seculares. Porém, ao longo dos anos, suas experiências com alunos e suas reflexões, baseadas na Bíblia e nos escritos de Ellen White, o levaram a reavaliar o papel da ficção.
Ele defende que a ficção só é válida quando segue o modelo de ensino de Jesus, observado, por exemplo, em Suas parábolas – ou seja, quando promove valores elevados e contribui para a edificação do caráter. Assim, argumenta que os cristãos devem evitar obras que contrariem princípios bíblicos e priorizar conteúdos que fortaleçam a fé e a pureza moral.
Critérios editoriais
Por isso, a Casa Publicadora Brasileira (CPB) é bastante criteriosa em suas publicações, seguindo parâmetros sólidos, fundamentados nos princípios editoriais das Escrituras e dos escritos de Ellen White. Para quem deseja se aprofundar no assunto, vale a pena, inclusive, consultar a tese de doutorado defendida pelo pastor Wellington Barbosa na Universidade Andrews (leia em português aqui). Essa ampla pesquisa foi fundamental para a estruturação do novo manual editorial da CPB, lançado neste ano.
Sintetizando as conclusões do estudo do gerente editorial da instituição, a diversidade de gêneros literários pode servir como ferramenta eficaz para a transmissão de valores espirituais, desde que orientada por critérios bem definidos. Essa diretriz implica evitar conteúdos que comprometam a fé, a formação moral ou o desenvolvimento intelectual, ao mesmo tempo em que se prioriza a qualidade literária, a profundidade e a coerência das narrativas.
Nesse contexto, a ficção é admissível, desde que obedeça a parâmetros rigorosos que evitem distorções históricas ou bíblicas e explicitem a natureza dos elementos imaginários. Assim, não se deve atribuir falas ou pensamentos a objetos inanimados ou a seres irracionais. Recursos como fábulas e personificações podem ser utilizados com critério, considerando-se o público-alvo e os objetivos pedagógicos.[11] No caso de narrativas com pano de fundo bíblico, o enredo não deve alterar nem interagir diretamente com o relato das Escrituras.
Saiba discernir
A ficção cristã tem se fortalecido no cenário literário contemporâneo. No Brasil, o gênero já conquistou espaço inclusive em grandes eventos, como a Bienal do Livro de São Paulo, um dos maiores do tipo na América Latina. Além disso, segundo dados do Google Trends, as buscas por termos como “livros de romance cristão” cresceram mais de 600% nos últimos cinco anos. Soma-se a isso o fato de que até editoras seculares têm apostado em autores desse segmento.[12]
No entanto, a expansão do gênero não elimina a necessidade de critérios por parte dos leitores; ao contrário, torna o discernimento ainda mais relevante. Mais do que rotular obras como “permitidas” ou “proibidas”, o desafio do cristão é avaliar, de forma intencional, o impacto daquilo que consome: se a leitura o aproxima de Deus, se reforça valores bíblicos e se contribui para sua edificação. Nesse processo, é fundamental reconhecer que o tempo também é um recurso espiritual.
Diante disso, cabe a reflexão: determinados livros realmente valem o investimento de tempo? A leitura ideal não é apenas a que entretém, mas a que aprofunda a compreensão das Escrituras, fortalece a vida devocional e amplia a visão missionária.
Assista ao episódio completo sobre o assunto no podcast Inverso:
MÁRCIO TONETTI é editor de revistas e um dos coordenadores do Núcleo de Marketing de Conteúdo (Numac) da Casa Publicadora Brasileira (CPB).
Referências
[1] Maiara Ribeiro, “Por que ler faz bem para o cérebro?”, 17 de setembro de 2025, disponível em: https://drauziovarella.uol.com.br/neurologia/por-que-ler-faz-bem-para-o-cerebro.
[2] Instituto Pró-Livro, “Retratos da Leitura no Brasil”, 6ª edição, 2024, disponível em: https://www.prolivro.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Apresentac%CC%A7a%CC%83o_Retratos_da_Leitura_2024_13-11_SITE.pdf.
[3] Luis Storyteller, “A geração Z não lê? Pense de novo. Vamos conversar sobre a revolução literária que está ocorrendo agora”, 23 de janeiro de 2026, disponível em: https://luisstoryteller.com.br/2026/01/23/a-geracao-z-nao-le-pense-de-novo-vamos-conversar-sobre-a-revolucao-literaria-que-esta-acontecendo-agora/.
[4] Navkiran Dhaliwa, “Wattpad Survey Reveals Evolving Reading Habits and Skepticism of AI in Publishing”, 10 de Janeiro de 2024, disponível em: https://goodereader.com/blog/commentary/the-future-of-fiction-wattpad-survey-reveals-evolving-reading-habits-and-skepticism-of-ai-in-publishing.
[5] Ellen G. White, Parábolas de Jesus (CPB, 2022), p. 200.
[6] Ellen G. White, Mensagens aos Jovens (CPB, 2021), p. 205.
[7] White, Mensagens aos Jovens, p. 206.
[8] Ellen G. White, Fundamentos da Educação Cristã (CPB, 2025), p. 70.
[9] Wellington Vedovello Barbosa, “Elaboração de um Manual Filosófico para Editores da Casa Publicadora Brasileira” (Tese de Doutorado, Universidade Andrews), 2021, p. 55, disponível em: https://digitalcommons.andrews.edu/dmin/798/.
[10] Derek C. Bowe, “Bíblia, Ellen White e ficção: a jornada de um professor,” Revista Educação Adventista, n° 82, v. 1, janeiro a março de 2020, disponível em: https://www.journalofadventisteducation.org/pt/2020.82.1.6.
[11] Barbosa, “Elaboração de um Manual Filosófico para Editores da Casa Publicadora Brasileira”, p. 252, 253.
[12] Thais Borges, “Entenda o que é ficção cristã e por que ela tem crescido tanto no Brasil”, 17 de novembro de 2024, site Correio, disponível em: https://www.correio24horas.com.br/asteriscao/entenda-o-que-e-a-ficcao-crista-e-por-que-ela-tem-crescido-tanto-no-brasil-1124.
