O telefone celular

Minha avó tinha telefone não por razões práticas mas, como sugeriram Veblen[bb] e Freud[bb], por razões simbólicas. Para esnobar riqueza. Quem tinha telefone era rico.

Telefonema era coisa grave. As casas não tinham telefone. Havia um “posto telefônico”. A chamada chegava no posto, que enviava um mensageiro à casa da pessoa chamada. Chegava o mensageiro, todo mundo estremecia. Tinha de ser coisa muito grave. Quem será que morreu? – se perguntava. Acho que é essa gravidade ancestral de uma chamada telefônica que explica o fato de que quando o telefone toca todo mundo corre. Interrompe-se tudo. Não conheço ninguém que, tocando o telefone, deixe o telefone tocar. Preciso resolver um assunto num escritório. Paro minhas coisas para ir lá. No balcão, ou numa mesa, converso com o funcionário. No meio da conversa, toca o telefone. Quem telefonou não foi lá, como eu, ficou em casa, não quis perder tempo. Pois quem estava me atendendo, sistematicamente, interrompe nossa conversa, me deixa esperando, e fica atendendo aquele que não foi. Por que? Porque se pressupõe que o telefonema é sempre mais importante. Telefonema é coisa grave.

Nos aeroportos fico contemplando o espetáculo, todo mundo falando no celular. Penso: Quantas coisas importantes estão acontecendo, inadiáveis! Ah! Como se sentem felizes as pessoas quando seu telefone celular toca. O toque de um celular anuncia para todos o quão importante ela é.

Nos aeroportos fico contemplando o espetáculo, todo mundo falando no celular. Penso: Quantas coisas importantes estão acontecendo, inadiáveis! Ah! Como se sentem felizes as pessoas quando seu telefone celular toca. O toque de um celular anuncia para todos o quão importante ela é. Eu, com frequência, faço palestras. E já é norma esperada que, no meio da minha fala, um telefone celular toque. A princípio eu ficava indignado mas não dizia nada. Mudei de idéia quando, certa vez, o telefone de um cavalheiro que se assentava na primeira fila tocou e ele, ao invés de desligar o telefone, conversou tranquilamente com a pessoa do outro lado da linha (??). E ali fiquei eu perplexo, com cara de bobo, falando, enquanto o tal cavalheiro, do centro de sua bolha narcísica, anunciava para as 600 pessoas o quão importante ele era. A pessoa que faz isso tem uma visão grandiosa e poderosa de si mesma. Ela se imagina encontrar no centro de coisas gravíssimas que exigem sua ação imediata. Caso contrário, se ela não atender o telefone e não agir, é possível que o mundo caia em pedaços. De alguma forma, é como se fôssemos um dos super-heróis, Batman ou Super-homem, de cuja ação imediata depende a normalidade do mundo. Agora quando o celular toca eu faço gozação. Faço interpretação psicanalítica. O telefone celular que toca é um falus que se exibe.

Acho um telefone celular uma coisa útil. É possível que, no futuro, eu compre um dos pequenos (pequeno mas potente!), que eu possa carregar na pochete. No coldre, jamais! Morreria de vergonha! Mas fico assombrado com a forma como as pessoas abrem mão da sua privacidade. Talvez porque a sua privacidade seja vazia, não tenha nada lá dentro. Sendo vazia, elas se sentem diluir no nada. Penso, assim, que o telefone celular é um artifício que se usa para lidar com a solidão.

por Rubem Alves[bb]

O Português não Gosta de Trabalhar

O português não gosta de trabalhar[bb]. Se há uma tecnologia que trabalhe por ele, ela que avance. Ele tem coisas mais interessantes para fazer como poeta[bb], do que a trabalhar. (…) O português trabalhou e trabalhou e trabalha sempre que for preciso. O que têm feito os emigrantes pelo mundo? Aonde eles vão e é preciso trabalhar, eles trabalham. (…) O português, dentro de determinadas condições, se a vida lhe fosse inteiramente favorável, ele gostaria muito mais de contemplar e poetar do que trabalhar. Mas quando é levado a uma função em tem que trabalhar, ele trabalha.

Agostinho da Silva

Nature

Na última sexta-feira acordei de um pesadelo[bb] às 5 horas. Só um sonho assim pra me acordar tão cedo. Soma-se a isso o fato de eu ter ido dormir quase às 3 horas na noite manhã anterior. O que se faz às 5 horas?

Pulei da cama suado e com os olhos arregalados. Luz! Luz intensa foi o que primeiro me viu. Eu também a vi, ali. Já tinha acordado antes, mas amarela. Teria tido a manhã também um pesadelo?

Corri com uma das pernas ainda dormentes…

Liam, meu filho de 1 ano, percebeu meu ‘bulir’ em uma caixa que fica à mesa, ali, sempre pronta, mas na caixa. É lá que dorme minha câmera. Certificado de que não me esquecera o cartão de memória, desci à rua e à luz. A manhã verdejava e nesse tom sem som das horas primeiras, cliquei!

O que se vê a seguir são ‘o olhar’.

Quanto vale a vida?

Quanto vale a vida? Vale um pão? A profissão? A religião? A devoção? Quanto vale a vida? Um livro, filhos e uma árvore? Vale a questão? A solução? Quanto vale? A família?
A mãe? O pai? O avô? Vale uma maçã? Um milho? Um milhão? Quanto vale a vida saber? A ignorância? A ingenuidade dos velhos? A perversão das crianças? Quantos vale? Vale o amor? Vale a saudade do que é bom? Vale o desespero do pior? Quanto vale? Vale um? Vale dois? Vale o cadaço? Vale a piada? Vale o desaforo? O que vale? Vale tanto? Vale até quando? Vale onde? Quanto vale a vida? Vale o engenheiro? Vale a engenharia? Vale o chapéu? O canudo? Vale o presente, o passar ou o futuro? Vale que valor? O real? O irreal? O passageiro? Quem vale? Que valor? Quanto vale a vida? O prazer vale? A conversa? Quanto vale? A seca vale? Quanto vale? Uma cidade? Quanto vale a vida? O bairro? São Paulo? O rio, os afluentes ou a potaveidade? Quanto vale a vida? As coisas grandes? As pequenas? A diferença? A igualdade? Quanto vale? Vale? Quanto vale a vida? Vale o “a”? vale o “b”? vale o “t”? quanto vale? A floresta vale? Quanto vale a vida? A Madeira? A flor? O lapis? Quanto vale? A borracha? Quanto vale a vida? Vale duas outras? Vale três outras? Vale dezenas de ostras? Vale peixes? Vale anzol? Anzóis? A sós? Quanto vale a vida? Vale a leitura? Vale a compostura? Vale a morte dela? Vale o nascimento de uma? Vale tudo? Vale nada? Vale pouco mais que aquilo? Vale pouco menos que isso? Quanto vale? Vale o quê? Quanto vale a vida? Vale a pergunta? Vale responder? Vale vivê-la? Quanto vale a vida? Não vale teus filhos! Não vale teus netos! Não vale teus irmãos! Não vale teu patrão! Não valeu a sinagoga! Não valeu o reconhecimento! Não valeu Israel! Valeu eu.

Nada por causa de ninguém

“A realidade do Evangelho[bb] estabelece como essência indiscutível e inquestionável que a nossa referência não deve ser o outro, para comparação de natureza alguma. Não temos de melhorar por causa do outro, não temos de ser coisa alguma por causa do outro. Não temos de ser “por causa” do outro. Temos de ser em Deus. E se não nos amarmos a nós mesmos em Deus, não amaremos a ninguém.

Se não pudermos experimentar o bem de Deus em nós, não haverá bem em nós para ninguém.

Se não pudermos ser o primeiro beneficiário da vida, não haverá vida em nós para ninguém mais.

De modo que o caminho do amor não é um caminho que olha para o outro enquanto destrói a si mesmo; da mesma forma que o caminho do discípulo não é um caminho que se compare com outro na perspectiva de melhorar por casua dele.

Não dá para ter o outro como referência de melhora existencial; isso significaria corrupção do próprio ser.

Podemos até esconder isso atrás de supostas virtudes: eu quero ser melhor do que os melhores – diria o virtuoso, ético. Ou ainda: eu quero ser como os melhores, crendo que daria o pulo do gato, sem perceber que apenas faria a viagem da inveja sob o manto e o disfarce das unções virtuosas, mas que estaria era perdendo a grande possibilidade da vida, que é ser ele mesmo em plenitude, segundo Deus, segundo Cristo; estaria era perdendo a grande possibilidade de abraçar o fato de que a melhor versão dele é ele em plenitude de si mesmo em Deus, explodindo; não por causa da provocação do outro, nem por causa da compraração com ninguém.”

Caminho do Discípulo 2 – Trecho Capítulo 10

Caio Fabio

Leia, pense e aplique

Artifícios de Satanás para manter os santos em uma condição triste, duvidosa, questionável e desconfortável.

 

Artifício

O primeiro conselho que satanás dá para manter as almas em tristeza, dúvida e
questionamento, é: Deixá-los imóveis, preocupados, meditando sobre o pecado, se
importando mais com o pecado do que com o Salvador; se concentrando tanto nos seus
pecados a ponto de esquecer: e até mesmo negligenciar seu Salvador. Seus olhos ficam
tão fixados em sua própria enfermidade, que eles não podem ver o remédio, embora esteja perto; e eles se consomem tanto por causa de seus débitos, que não sobra nem mente nem coração para pensar em seu Fiador.

Cristo, nesta vida, não irá libertar nenhum crente da presença de qualquer pecado, embora Ele libere todo o crente do poder condenador de cada pecado de cada pecado.

Remédio

Constantemente mantenha um dos seus olhos nas promessas de remissão de pecados,
e o outro nas operações ocultas do pecado.

Ó, lamentam vossas almas, que passaram seus dias suspirando e gemendo sob o peso
de seus pecados. Por que vocês lidam tão cruelmente com Deus e tão ofensivamente com suas próprias almas, como se não quisessem olhar as preciosas promessas de remissão de pecados, as quais, podem suster e refrigerar seus espíritos na noite mais escura, e sob a carga de pecados mais pesada.

Não parceria fraqueza, eu quase disse, loucura, que um devedor se sentasse
desencorajado sobre suas dívidas, as quais, o seu fiador, prontamente, livremente, as
pagou? A consciência deste grande amor deveria manter o homem para sempre
compromissado em amar e honrar o seu fiador que pagou seu débito. Mas sentar-se
desencorajado quando a dívida já foi paga, é um pecado que necessita de
arrependimento.

Os crentes devem se arrepender por estarem desencorajados por seus pecados. Isto se
origina da ignorância sobre a riqueza, a liberdade, a plenitude e o eterno amor de Deus; da ignorância do poder, glória, suficiência e eficácia da morte e do sofrimento do Senhor
Jesus Cristo; e da ignorância da real, íntima, espiritual, gloriosa e inseparável união que há entre Cristo e suas preciosas almas. Ah! As almas preciosas sabem e crêem na verdade destas coisas como elas são. Elas não se sentem abatidas e sobrecarregadas sob a consciência e armadilha do pecado.

A Inutilidade do Viajar

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? Não é isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paixões eróticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. Não faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas detém a atenção momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma criança que pasma perante algo que nunca viu! Além disso, o contínuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (já de si considerável!) do espírito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, vão-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar dá-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos formações montanhosas desconhecidas, planícies habitualmente não visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgotáveis; proporciona-nos a observação de algum rio de características invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Verão, o Tigre, que desaparece à nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubrações dos poetas, contorcendo-se em incontáveis sinuosidades, fazendo incessantemente ainda mais um circuito antes de enfim descansar no leito de que se aproxima. Mas viajar não torna ninguém melhor de carácter nem mais são de espírito. Teremos de nos aplicar ao estudo, de frequentar os mestres da filosofia, a fim de assimilarmos os princípios já estabelecidos e investigar o que ainda está por descobrir. Só assim a alma se pode arrancar à mais dura servidão e alcançar a verdadeira liberdade. Enquanto ignorares a distinção entre o evitável e o desejável, o necessário e o supérfluo, o justo e o injusto, o moral e o imoral — nunca serás um viajante, mas apenas um ser à deriva.As tuas deambulações não te trarão qualquer proveito, já que viajas na companhia das tuas paixões, seguido sempre pelos males que te dominam. E bom era que estes males apenas te seguissem! Bom era que eles estivessem longe de ti! O que se passa, porém, é que os levas em cima, e não atrás de ti. Deste modo, onde quer que estejas, eles oprimem-te, destroem-te com a mesma virulência. Um doente precisa que se lhe indique um remédio, não um panorama. Se um homem parte uma perna ou faz uma entorse não vai pôr-se a passear de carro ou de barco: manda, sim, é chamar um médico que lhe ligue o membro partido ou ponha no seu lugar o osso deslocado. Ora bem: acaso pensas tu que uma alma quebrada ou torcida em tantos lugares pode tratar-se com uma simples mudança de ambiente? Não, esta doença é demasiado grave para curar-se com um passeio! A formação de um médico ou de um orador não se faz em viagem; a aprendizagem de qualquer arte não depende da geografia. Como pensar que a sabedoria, a mais importante das artes, se pode adquirir saltando daqui para acolá?! Podes crer que nenhuma viagem te põe ao abrigo do desejo, da ira, do medo; se tal fosse o caso, todo o género humano começaria em massa a viajar. Estes males não cessarão de atormentar-te, de desgastar-te ao longo das tuas viagens, terrestres ou marítimas, enquanto tiveres em ti as suas causas. Admiras-te que de nada valha fugir quando tens dentro de ti aquilo de que foges?

Lucius Annaeus Seneca[bb]
Roma Antiga
Filósofo, Escritor

Igreja X Política

Abaixo está um vídeo do Ariovaldo Ramos[bb] respondendo sobre a relação entre a Igreja e a Política.

Decidi postar aqui porque em 99% do discurso, concordo com ele. No quê discordo? No minuto 2 e 33 segundos quando argumenta que o cristão que não se portar como cristão na política, como em qualquer outra área, deve ser disciplinado pela igreja. Disciplina esclesiástica – eis um assunto esquisito. E antes que alguém chegue aqui e venha argumentar sobre 1 Coríntios, Hebreus e tal… o fato é que de tanto praticar este ato de ‘descomungar’ os outros, podemos ser achados ‘descomunados’. E, pior, quem é Deus?

E deixo claro que não sou contra ser disciplinado por Deus, mas de ser disciplinado por quem não é Deus.

#EmMovimento

Esta semana fui desafiado por Fabio Silva do movimento Novo Jeito a escrever 20 dicas para colocar as pessoas em movimento. A única recomendação foi que essas dicas[bb] pudessem, de fato, mudar uma situação, uma realidade e/ou ser uma ação ‘modelo’ e contagiante. Vamos a lista!

1. Faça uma vaquinha e realize o sonho de alguém
2. Doe 5 peças do seu roupeiro
3. Plante uma árvore
4. Junte a família e ajude uma ong
5. Mate a fome de alguém
6. Mobilize sua turma e visite/ajude um orfanato
7. Envie uma carta de esperança pra alguém preocupado
8. Promova um jantar pra um casal em crise
9. Doe sangue
10. Visite uma creche
11. Pague um almoço pra um mendigo
12. Doe um livro
13. Elogie alguém publicamente
14. Visite um asilo
15. Doe uma cesta básica pra alguém
16. Alguém precisa de perdão? Perdoe!
17…
18…
19…
20…

O que você achou? Escreva você as outras 4!